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Cooperativismo fortalece produtores e fomenta a modernização da cafeicultura


Não parece, mas por trás de uma simples e inocente xícara de café há muita história. Desde o cultivo da planta pelos árabes, na antiguidade, e sua posterior descoberta na região da Etiópia, por volta do século 9, por um pastor de cabras, até os dias de hoje, muita coisa ocorreu. Na Europa, o café foi introduzido no século 16 e, no Brasil, chegou no início do século 18, trazido pelo militar Mello Palheta, que roubou uma muda da esposa do governador da Guiana Francesa. Só esses fatos já seriam suficientes para encher a prateleira de uma biblioteca.

Mas há um capítulo importante na história secular do café que merece registro. Esse capítulo diz respeito ao desenvolvimento da cultura, à sua renovação e à profissionalização da atividade cafeeira graças aos investimentos feitos pelas cooperativas. Por isso, antes de tratar das cooperativas de café, é fundamental saber um pouco mais sobre o cooperativismo, que se desenvolveu da simples ideia de comprar montantes maiores de alimentos para que se pudesse obter preços mais atrativos. 

Essa ação básica ocorreu há mais de 170 anos no interior da Inglaterra e envolveu quase três dezenas de trabalhadores, que sofriam para garantir o seu sustento ante os altos preços dos comércios locais. Essa iniciativa deu a largada para um sistema que ganharia corpo. A união dos trabalhadores ingleses, 12 anos depois da primeira compra, já envolvia uma teia de mais de 3 mil sócios. A experiência foi um sucesso e se espalhou pelo mundo.


No Brasil — O cooperativismo chegou ao Brasil no final do século 19, com a primeira cooperativa conhecida sendo a de Ouro Preto, Minas Gerais, focada em produtos agrícolas. E é na agricultura que o cooperativismo brasileiro, até hoje, vem apresentando muitos destaques. Um dos segmentos que tem o cooperativismo como parceiro inato é o cafeeiro. Nos idos dos anos 60 do século passado, o IBC (Instituto Brasileiro do Café), o então órgão forte da economia cafeeira do país, estimulou a criação de cooperativas de café, vendo nelas um potencial para garantir maior força para os produtores e para as regiões que plantavam o grão.

Pouco a pouco, do Paraná ao sul de Minas Gerais, passando pelo interior paulista, Cerrado, Rio de Janeiro, entre outras regiões, se observou o florescimento de várias cooperativas. Muitas delas ganharam força, amealharam associados e tiveram papel chave na condução da cafeicultura nacional, mesmo diante de desafios variados, como os problemas climáticos, as crises de preço, o surgimento de novos concorrentes internacionais, entre outros.

Não seria exagero dizer que as cooperativas tiveram papel chave no "renascimento" da cafeicultura brasileira. Várias delas, atuando em apoio a entidades de pesquisa e desenvolvimento, abriram espaço para a criação de novas variedades resistentes a doenças e pragas como a broca, o bicho mineiro, a cigarrinha, o nematoide, entre outras. Atuaram na busca de soluções para problemas como o da ferrugem e também trouxeram ao mercado novas ideias sobre plantio, espaçamento, irrigação e outras ações, que fizeram com que o país tivesse uma das maiores produtividades da cafeicultura mundial.


Cerrado Mineiro — São muitos os exemplos de sucesso da relação entre a cafeicultura e o cooperativismo. Um que salta aos olhos é verificado no Cerrado Mineiro. A região é reconhecida pelos cafés de alta qualidade e pela aposta na irrigação e vem, ano a ano, conseguindo colocar em evidência sua cafeicultura por ações focadas em sustentabilidade, certificação e outros atributos que se mostram cada vez mais demandados por compradores internacionais.

O trabalho das cooperativas nesse sentido já vem sendo estudado e estimulado há anos, mas, em 2015, um plano de desenvolvimento, de cinco anos, foi divulgado, reforçando a denominação de origem "Região do Cerrado Mineiro", que tem como foco o reconhecimento da qualidade dos cafés locais e a diferenciação por meio da demarcação dessa área e sua devida certificação. Essa foi a primeira denominação de origem para café no Brasil.

Para se conquistar esse status houve a união de várias cooperativas locais, como Capal, Carpec, Coocacer, Expocaccer, Coagril, Coopa e Montecce, além de algumas associações de produtores. Tal união permitiu aos produtores contarem com melhores condições para desenvolver a cultura cafeeira, realizar a comercialização do produto e também passarem a ter uma estrutura sólida para investir em melhorias em suas propriedades, privilegiando, principalmente, aspectos ambientais e, assim, tendo condições para obter certificações e outros reconhecimentos, que são referências junto aos compradores europeus, asiáticos ou norte-americanos.

O cafeicultor Jorge Naimeg, da Fazenda Pântano, em Coromandel, vê no cooperativismo um instrumento agregador, no qual os diversos produtores de uma região podem atuar de forma conjunta em busca de resultados concretos. "O cooperativismo é isso: todo mundo junto. Ele consegue engajar as pessoas para que elas façam sua parte e, assim, seja possível implementar mudanças", avaliou.

O produtor vem desenvolvendo diversas ações em busca de obter melhorias constantes, não apenas no grão colhido, mas também em aspectos ambientais e sociais. Para tanto, conta com o apoio técnico da Expocaccer. Seu pai foi um dos primeiros associados dessa cooperativa e hoje os filhos — todos cafeicultores — também são associados e participam ativamente das propostas elaboradas localmente para a consolidação da denominação de origem "Região do Cerrado Mineiro".

"A cafeicultura de hoje não pode produzir se não levar em conta aspectos como a questão ambiental. Pensamos o que cada produtor pode fazer nessa área para termos melhores resultados. Cada propriedade preserva suas APPs (Áreas de Preservação Permanentes), recupera nascentes, planta árvores nativas, entre outros procedimentos", explicou.


Preservar dá retorno financeiro — A Fazenda Pântano segue diversos procedimentos, por meio de acompanhamento do corpo técnico da Expocaccer, o que a fez obter várias certificações, como, por exemplo, a Rainforest Alliance, que "abre várias portas" para o café nos mercados internacionais. Tal certificação atua como colaboradora do programa AAA da Nestlé, que busca a aquisição de grãos para a marca Nespresso, comercializada em grande parte do planeta.

A preocupação com esses aspectos por parte das cooperativas do Cerrado é tão efetiva que uma delas conta até mesmo com um Departamento de Sustentabilidade. É a Expocaccer, que criou essa unidade com o foco em levar aos cooperados os aspectos necessários para que suas fazendas possam ter as certificações que o mercado exige.



"Nosso foco é a sustentabilidade e agregar valor. É difícil preservar se não houver retorno financeiro. Mas quem se volta para os aspectos sustentáveis tem um ganho, que é o de conseguir entrar em novos mercados e poder lucrar com isso. Posteriormente, o produtor começa a enxergar e vê aspectos gratificantes, como a preservação de matas, como a satisfação dos funcionários", explicou Petrônio Primo Naves Júnior, coordenador do Departamento.

Essa unidade do Expocaccer tem uma equipe de campo, que faz todo o levantamento das propriedades. Num segundo momento, outra equipe elabora os projetos ambientais e sociais e dá todo o suporte para aspectos como a certificação, venda, controle fiscal, de armazenagem, entre outros. 

"Nós vemos que os próprios produtores estão muito mais conscientes, já nos trazem várias ideias. Eles estão apostando nos aspectos sustentáveis e vendo que contar com uma certificação, como a da Rainforest, por exemplo, permite ganhos importantes", complementou Naves Júnior.


Garça: sem cooperativa produtores sofrem — Mas, e sem uma cooperativa é possível desenvolver bem a atividade cafeeira? Tome-se o exemplo de Garça, cidade do interior paulista com 45 mil habitantes e que já esteve entre as maiores produtoras do grão em todo o país.

Em 1962, alguns produtores garcenses de café perceberam a importância da união da classe em torno de objetivos comuns. Nesse momento, começava a nascer a Garcafé (Cooperativa dos Cafeicultores da Região de Garça). O desestímulo e a intranquilidade do cafeicultor eram grandes em 1962, consequência de uma crise que se arrastava desde a grande depressão mundial de 1929. Era preciso aumentar a produtividade das lavouras cafeeiras, melhorar os preços e conhecer o momento certo para a comercialização. Tendo em vista esses fatos, esse grupo de idealistas verificou a necessidade de se desenvolver uma luta conjunta. A partir daí, surgiu a cooperativa, exatamente em 21 de abril de 1962. 



Quem se lembra bem dessa fundação é o cafeicultor e engenheiro agrônomo Carlos Ferrari, que hoje tem 86 anos de idade e foi um dos protagonistas na criação da entidade. Na época, foi ele quem convocou uma reunião na Câmara Municipal para se discutir o assunto pela primeira vez, com a participação do Departamento de Cooperativismo da Secretaria da Agricultura de São Paulo.

Segundo Carlos Ferrari, no final dos anos 50 e início dos 60, o parque cafeeiro local estava decadente. 

“Muitas lavouras antigas estavam sendo erradicadas. Municípios que tinham 40 milhões de pés de café ficaram sem nenhum. O governo pagava para que erradicássemos”, lembrou. “Eu, como agrônomo da Casa da Agricultura de Garça, na época, notei que era necessária uma renovação. Então nós lançamos uma campanha com novos métodos (de plantio e de tratos culturais).”

Garça foi então o município que iniciou a renovação da cafeicultura nos anos 60 na região oeste paulista, com a campanha “Renovar para Salvar”. Essa semente foi disseminada pelo Brasil todo e a própria cafeicultura que hoje se verifica em Minas Gerais é herdeira desse movimento. Um detalhe fundamental no sucesso dessa empreitada é a participação decisiva da Garcafé, uma cooperativa que já nascia grande, com força política e credibilidade. 

A primeira diretoria, presidida por Jaime Nogueira Miranda, logo foi plenamente reconhecida pelo IBC, que, num fato inédito ocorrido em 20 de janeiro de 1963, outorgou carta à cooperativa, elevando-a ao grau de exportadora. Esta autorização normalmente era concedida às empresas com mais de um ano de funcionamento comprovado. No final de 1963, a cooperativa já contava com o expressivo número de 118 associados. No ano seguinte, somaram-se a eles mais 107 cooperados.

“Sem o apoio da cooperativa, não teríamos condições de promover essa campanha de renovação da cafeicultura em Garça e região. O apoio foi total”, destacou Carlos Ferrari.

A cooperativa investia em pesquisa de novas variedades de café no Campo Experimental “Dr. Alcides de Carvalho”. Por meio do corpo de agrônomos do seu departamento técnico, desenvolvia novos tratos culturais, fornecia insumos com loja própria e prestava total assistência aos produtores, fossem eles grandes ou pequenos. E ainda dava total apoio na comercialização da safra e na melhoria das propriedades, como na conservação de áreas de preservação ou na proteção de nascentes. 

Ao longo dos seus mais de 40 anos de existência, a Garcafé também teve papel central e participação ativa junto ao governo na formulação da política cafeeira do país. A cooperativa sempre esteve envolvida nas tomadas de decisões e, mais que isso, teve representantes nos principais órgãos do setor. 


Crise e fim – Apesar da pujança das décadas de 60, 70 e 80 do século passado, a cooperativa acabou entrando em declínio. No início do século 21, a Garcafé passou a apresentar dificuldades financeiras, chegando ao ponto de não conseguir equacionar suas dívidas. Fechou as portas em 2005. 

O cafeicultor Carlos Ferrari, que chegou a contar com 50 hectares de café plantados, hoje tem apenas dez. Ele classifica o fechamento como uma “tragédia” para a atividade. Na área em que erradicou boa parte da sua lavoura cafeeira, atualmente ele cria búfalos.

“O cafeicultor hoje está completamente desamparado. Ele está na mão de firmas compradoras de café que fazem o preço que bem entendem. É difícil comprar insumos. O pequeno produtor que compra insumos em pequena quantidade e não pode adquirir uma carreta de adubo, por exemplo, está desamparado e perdendo mercado. Os pequenos e médios estão desaparecendo. É claro que se a cooperativa existisse nós teríamos outras condições. O nosso parque cafeeiro de Garça diminuiu muito”, lamentou.


Liquidante — Uma Comissão Liquidante foi instalada logo após o fechamento da Garcafé. Seu presidente é o cafeicultor José Wilson Lopes, para quem o insucesso da cooperativa começou a partir de 1990. Segundo ele, através da atuação e influência da Garcafé, os produtores tinham condições de obterem melhores preços para o produto. Portanto, o fechamento provocou certa desestruturação da atividade na região.

Lopes lembrou ainda que, além do apoio irrestrito aos cooperados, a Garcafé também cumpria um papel social, pois gerava muitos empregos e colaborava com diversas entidades assistenciais na cidade.

“É bom destacar que, entre 1979 e 1989, a cooperativa foi a responsável pela instalação da hemodiálise na Santa Casa de Misericórdia de Garça”, disse ele, que ainda tem esperanças de que será possível reativar a cooperativa.

“Uma área como a nossa, com o tipo de café que produzimos, não pode mais ficar sem uma cooperativa. O café de Garça é procurado em vários lugares do mundo, mas os compradores europeus exigem um produto de boa qualidade”, apontou.

Segundo José Wilson Lopes, a dívida da Garcafé é hoje de R$ 138 milhões. Mas ele trabalha junto ao governo para tentar convencer o governo a retirar multas e juros que representam boa parte desse valor.

“Temos que negociar nossa dívida dentro do que podemos pagar. E parece que o governo federal começou a entender. Há um ano pagamos R$ 6 milhões de INSS e estamos prestes a liquidar uma dívida de R$ 63 milhões junto ao governo, dos quais teremos um desconto de R$ 40 milhões. Com isso, acredito que a cooperativa poderá voltar a operar para que possamos pagar o restante do que devemos a fornecedores e a alguns cooperados”, encerrou ele.

Café e cooperativismo há muito andam juntos, com resultados muito expressivos. Da renovação da cultura nos anos 60 até a aposta em denominação de origem e certificação dos dias atuais, se depreende que as cooperativas têm um papel diferenciado em permitir que a atividade cafeeira se desenvolva de maneira efetiva. Nas regiões onde essas empresas continuam fortes e ativas, verificam-se resultados que, de modo algum podem ser desprezados, sejam em aspectos econômicos, sustentáveis, ambientais ou sociais.


Fonte: Jornal Debate - Reportagem de Flávio Bredariol e Marcos Fidêncio

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