Empresário de Franca tem prisão decretada após sumiço de café
Por Leonardo de Oliveira/Redação
A Justiça de Minas Gerais decretou a prisão do empresário de Franca Elvis Vilhena Faleiros. Ele é presidente da Cocapil (Cooperativa dos Cafeicultores e Agropecuaristas de Ibiraci-MG) e alvo de um processo judicial que investiga o desaparecimento de café depositado por cooperados, com prejuízos estimados em até R$ 50 milhões. A Cocapil conta com 621 cooperados ativos.
Na ação, Faleiros é acusado de ter permitido operações que resultaram em forte desequilíbrio financeiro e de utilizar café de estoque — inclusive de produtores — para cobrir compromissos da cooperativa. Os autos mencionam suspeitas de fraude e gestão temerária, que culminaram na ordem de prisão preventiva contra o empresário francano.
Também são alvos da ação os diretores da Cocapil, Guilherme Andrade Clausing e José Ivano Bruziquesi Neto, que tiveram bens bloqueados, assim como Faleiros. “Segundo levantamento da Polícia Civil, o valor dos bens indevidamente apropriados chega à cifra de R$ 50 milhões”, diz trecho da ação.
Produtora tenta reaver R$ 800 mil em sacas de café
Segundo a documentação juntada ao processo, os relatos de prejuízos começaram a surgir quando cooperados tentaram reaver as sacas que haviam depositado. Em um dos registros, uma produtora relata ter 342 sacas avaliadas em R$ 803.700,00 e afirma que foi informada de que o café dos cooperados teria sido usado para "cobrir operações malsucedidas" da cooperativa, sem autorização.
Em outro depoimento, um cooperado afirma ter perdido 35 sacas avaliadas em R$ 80.500,00 e menciona suspeitas de que o café teria sido oferecido como garantia em operações financeiras. Esses dois casos descritos somam R$ 884.200,00 — valor parcial, referente apenas às situações citadas neste trecho do processo.
O material também registra alegações de esvaziamento dos armazéns e questionamentos sobre eventuais movimentações societárias. Até o momento, no entanto, o volume total consolidado de prejuízos ainda não foi completamente esclarecido, mas estimativas apontam que o montante pode ultrapassar R$ 50 milhões, segundo o inquérito policial.
A cronologia apontada pelos autos indica que o quadro começou a se agravar entre 2018 e 2021, período em que a Cocapil realizou operações de trava de café, com entregas futuras em prazos de três a cinco anos. Com o passar do tempo, cooperados passaram a questionar a dimensão das dívidas e o destino do produto depositado, enquanto o caso avançava nas esferas policial e judicial.
Defesa diz que a disparada nos preços da saca agravou a situação
Diante das acusações, a defesa de Elvis apresentou sua versão. Segundo o advogado Márcio Cunha, “o passivo da Cocapil atualmente é da ordem de R$ 100 milhões, não sendo verdade qualquer valor acima disso”. Ele afirma que a dívida decorre principalmente das travas firmadas em um período em que a saca era negociada entre R$ 500 e R$ 700. De acordo com ele, a cooperativa tinha aproximadamente 70 mil sacas contratadas, mas apenas cerca de 17 mil sacas foram efetivamente entregues, em parte porque muitos acordos eram verbais e não chegaram a ser assinados.
Cunha sustenta que fatores externos agravaram a situação. Com pandemia, geadas e seca, o preço do café saltou para valores superiores a R$ 2.500,00, chegando a R$ 3.000,00 por saca. Nesse cenário, muitos produtores optaram por não entregar o café contratado, enquanto exportadores pressionavam a cooperativa.
Para evitar medidas judiciais, a Cocapil teria decidido "entregar café próprio e de estoque", o que ampliou as perdas porque a cooperativa "entregava café a R$ 500 e R$ 700 e precisava recomprá-lo por cerca de R$ 2.500".
O advogado admite falhas na gestão e afirma que "o crescimento do passivo decorre de erros da administração", principalmente pela manutenção de contratos com preços fixos que se tornaram "altamente deficitários" após a disparada do mercado.
Ele diz que o plano proposto é priorizar os produtores. "A cooperativa pretende priorizar o pagamento dos cooperados por meio da venda de propriedades e ativos", enquanto, para bancos e fornecedores, a estratégia é a "renegociação das dívidas, buscando acordos e alongamento de prazos".
Sobre a prisão preventiva decretada, Cunha afirma que a medida foi "totalmente desnecessária". Segundo ele, Elvis “em nenhum momento se furtou a prestar esclarecimentos” e “sempre esteve presente na Cocapil” até a decisão judicial, atuando na construção de “um plano estruturado de pagamento”.
Para o advogado, a prisão “interrompeu negociações avançadas para a venda de propriedades e ativos”, atrasando a recuperação de valores. A defesa informa ainda que Elvis “entregou seu passaporte, impetrou habeas corpus no Tribunal de Justiça de Minas Gerais e aguarda decisão sobre a revogação da prisão preventiva”.
Questionado sobre o destino do café depositado, Cunha afirma que o produto foi “vendido ao longo dos últimos cinco anos para honrar compromissos com exportadores”, sobretudo por causa de travas não cumpridas. Segundo ele, essas operações geraram prejuízo porque “a cooperativa entregava café a R$ 500 e R$ 700 e precisava recomprá-lo por cerca de R$ 2.500”.
Ao final, o advogado afirma que Elvis "não fugirá de suas responsabilidades" e considera possível, "primeiro, o pagamento de todos os cooperados e produtores com sacas de café e, sem dúvida, a negociação com as instituições financeiras e demais credores".
"Muitos pontos obscuros e poucos esclarecimentos"
Uma assembleia de cooperados para discutir o problema foi convocada para o dia 24 de dezembro. Os produtores questionaram a reunião logo no início. Segundo o especialista em café João Jacinto, que representou alguns cooperados, a assembleia “seria nula, pois não havia nenhum representante da diretoria presente”. Ele afirma que os temas debatidos também teriam divergido do edital de convocação, o que gerou novas contestações.
Ainda de acordo com Jacinto, os representantes dos produtores cobraram garantias concretas para o plano de pagamento apresentado, incluindo penalidades em caso de descumprimento. "Não foi apresentada nenhuma garantia, nem imóveis a serem bloqueados para garantir os débitos", afirma. Segundo ele, foram mencionados passivos bancários superiores a R$ 60 milhões e dívidas com produtores acima de R$ 45 milhões.
O especialista avalia que o impacto econômico é expressivo. Ele lembra que Ibiraci é o quarto maior produtor de café arábica do Brasil, com um PIB (Produto Interno Bruto) próximo de R$ 900 milhões, e diz que uma cooperativa com déficit estimado em cerca de R$ 150 milhões — a defesa fala que não supera R$ 100 milhões — representa aproximadamente 20% do PIB do município. Para Jacinto, o cenário provoca “insegurança, quebra de confiança e ausência de credibilidade” entre os produtores.
Jacinto também menciona indícios levantados por cooperados de que a cooperativa teria funcionado "apenas de fachada", com forte concentração de poder em um mesmo grupo familiar, além de relatos de sumiço de cafés depositados — fatos que, segundo ele, motivaram o processo criminal e o pedido de prisão. Ele cita ainda a informação de que a cooperativa teria registrado lucro de R$ 33 milhões em 2024 na Junta Comercial, número que, no ano seguinte, teria se transformado em déficit, o que, para os produtores, seria um possível indício de gestão fraudulenta.
O especialista também aponta que a assembleia marcada para 24 de janeiro deve deliberar sobre o plano de pagamento e afirma que existe preocupação de que eventuais acordos sejam utilizados para tentar descaracterizar crimes e encerrar ações judiciais. “São muitos pontos obscuros e poucos esclarecimentos, já que a diretoria não se fez presente”, finalizou.