Preços refletem um “cabo de guerra” entre fatores de sustentação e de pressão
Por Kaique Cangirana, da CNN Brasil
Os preços internacionais do café permaneceram praticamente estáveis nos últimos 30 dias, apesar de um período marcado por elevada volatilidade e incertezas climáticas nas principais regiões produtoras. A conclusão é do Itaú BBA, braço agro do banco Itaú, no boletim de janeiro divulgado nesta sexta-feira (16). Os próximos meses devem seguir marcados por elevada sensibilidade às condições climáticas no Brasil e ao ambiente geopolítico internacional.
O contrato do café arábica negociado em Nova York, com vencimento em março de 2026, oscilou entre a mínima de US$ 3,40 por libra-peso e a máxima de US$ 3,76 no período. No dia 14 de janeiro, o contrato encerrou cotado a US$ 3,56 por libra-peso, praticamente no mesmo nível observado 30 dias antes. No mercado de robusta, em Londres, os preços também mostraram pouca variação, girando em torno de US$ 3.950 por tonelada.
No Brasil, a estabilidade externa se refletiu nos preços ao produtor. O arábica foi negociado em torno de R$ 2.200 por saca, enquanto o conilon - que é uma variedade da espécie canéfora, que inclui o robusta - permaneceu próximo de R$ 1.300 por saca.
Segundo o relatório do Itaú, o comportamento dos preços reflete um “cabo de guerra” entre fatores de sustentação e de pressão. De um lado, seguem no radar os riscos climáticos no Brasil, as enchentes em regiões produtoras da Indonésia e os baixos níveis de estoques certificados nas bolsas internacionais. Do outro, previsões pontuais de chuva em áreas cafeeiras brasileiras e a expectativa de maior oferta nos países asiáticos atuaram como elementos de alívio temporário.
No Brasil, o regime de chuvas segue irregular nas principais regiões produtoras, especialmente no Sul de Minas, maior polo cafeeiro do país. Em Varginha (MG), foram registrados 168 milímetros de chuva em dezembro, volume cerca de 40% abaixo da média histórica. Até 14 de janeiro, o acumulado era de apenas 35 milímetros. A Zona da Mata mineira apresenta quadro semelhante, enquanto no Cerrado Mineiro as chuvas de dezembro ficaram próximas da média, mas concentradas na primeira quinzena do mês.
Além da irregularidade das precipitações, o calor excessivo observado em praticamente todas as regiões produtoras tem aumentado a preocupação do mercado, sobretudo diante do cenário de déficit hídrico, o que pode trazer impactos para o desenvolvimento das lavouras ao longo do ciclo.
O banco destaca que o desenvolvimento climático no Brasil continuará no “centro das atenções”, já que o período atual é decisivo para a fase de granação dos grãos.
Além do clima, o cenário geopolítico turbulento tem adicionado volatilidade às cotações do café. Entre os fatores de atenção estão as tensões na relação entre Estados Unidos e Colômbia após ações na Venezuela, além da inclusão do Brasil em uma lista de países com suspensão temporária na emissão de vistos, movimento que alimentou especulações sobre possíveis impactos nas relações comerciais, informou o Itaú BBA.
Nesse contexto de prêmio de risco elevado e de um quadro de oferta ainda desafiador, a curva futura do café arábica permanece praticamente nos mesmos níveis observados há 30 e 90 dias, segundo o Itaú BBA. Já o contrato de robusta com vencimento em março de 2026 é negociado atualmente cerca de US$ 500 por tonelada abaixo do patamar registrado há 90 dias.
O banco mantém a projeção de uma safra brasileira maior em 2025, o que tende a aliviar parcialmente a pressão sobre o balanço global de café, caso o cenário se confirme. Ainda assim, o Itaú BBA avalia que os próximos meses devem seguir com oferta apertada, com exportações em níveis mais baixos, o que limita um alívio mais rápido dos preços.