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Cafeicultura regenerativa como parte da solução global da água


Leia, na sequência, artigo de autoria de Silas Brasileiro, presidente do CNC (Conselho Nacional do Café).


O recente relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), repercutido essa semana pelo Correio Braziliense (clique aqui e veja a reportagem completa), lança um alerta contundente à comunidade internacional: o planeta já não vive uma crise, mas sim uma falência hídrica. Segundo o documento, o esgotamento crônico de aquíferos, a degradação do solo e a poluição comprometeram de forma estrutural a capacidade de suporte dos sistemas hidrológicos em diversas regiões do mundo, muitas delas próximas — ou além — do ponto de não retorno.

De acordo com o autor principal do estudo, Kaveh Madani, diretor do Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas (UNU-INWEH), cerca de 70% dos principais aquíferos do planeta estão em declínio, e já não se pode falar em eventos pontuais ou transitórios. Trata-se de um estado persistente de degradação ambiental, que exige não apenas gestão de crises, mas gestão de falências, com redução de demanda, adaptação e reconstrução do capital natural.

Nesse contexto, a discussão sobre água deixa de ser setorial e passa a ocupar o centro das agendas de segurança alimentar, estabilidade econômica, justiça social e cooperação internacional. Como destaca o relatório, os impactos da escassez hídrica se globalizam por meio do comércio, dos fluxos migratórios, das cadeias produtivas e das tensões geopolíticas.

A agricultura é simultaneamente uma das atividades mais impactadas pela falência hídrica e uma das mais estratégicas para enfrentá-la. Em especial, sistemas produtivos que dependem diretamente do equilíbrio entre solo, água e clima passam a ter um papel decisivo na reversão — ou mitigação — dos danos ambientais acumulados.

É nesse cenário que a cafeicultura brasileira, especialmente aquela orientada por princípios de sustentabilidade e regeneração, se consolida como parte relevante da solução global. O Brasil, maior produtor e exportador de café do mundo, reúne escala, diversidade de biomas, base técnica e arranjos institucionais capazes de transformar práticas agrícolas em serviços ecossistêmicos.

O Programa Café Produtor de Água, articulado pelo Conselho Nacional do Café (CNC) e em execução em cooperativas associadas à entidade, é um exemplo concreto de como a cafeicultura pode contribuir para enfrentar a falência hídrica apontada pela ONU. A iniciativa reconhece o produtor rural como guardião dos recursos hídricos.

O programa tem como objetivos a preservação das vegetações nativas e matas ciliares, a proteção de nascentes e mananciais, o plantio de árvores, a recuperação de estradas rurais e a implantação de estruturas como bacias de contenção, contribuindo para evitar erosões, o assoreamento de rios e lagos e para melhorar a infiltração de água no solo.

Ao reconhecer que os benefícios ambientais gerados no campo ultrapassam os limites das propriedades rurais e alcançam centros urbanos e industriais, o Programa Café Produtor de Água adota o princípio da responsabilidade compartilhada. Por meio do Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), os produtores são compensados pelos investimentos e pelas ações de conservação ambiental que realizam, promovendo uma distribuição mais justa dos custos e benefícios ao longo da cadeia produtiva do café.

Ao integrar manejo conservacionista do solo, recuperação de áreas degradadas, proteção de matas e vegetações ciliares e uso racional da água, o programa atua diretamente sobre os fatores estruturais que o relatório da ONU identifica como críticos: degradação do capital natural e perda da capacidade hidrológica dos sistemas.

Mais do que mitigar impactos, trata-se de reconstruir funções ecológicas, aumentando a resiliência das bacias hidrográficas e criando condições para a adaptação às mudanças climáticas.

A cafeicultura regenerativa amplia essa abordagem ao ir além da sustentabilidade tradicional. Em vez de apenas reduzir danos, propõe restaurar solos, biodiversidade e ciclos hidrológicos, transformando áreas produtivas em paisagens funcionais do ponto de vista ambiental.

Práticas como cobertura permanente do solo, diversificação vegetal, integração com sistemas agroflorestais, uso eficiente de insumos e valorização do conhecimento local contribuem para:

aumento da matéria orgânica do solo;

maior retenção e infiltração de água;

redução da erosão e da compactação;

melhoria do microclima e da estabilidade produtiva.

Esses efeitos dialogam diretamente com as conclusões do relatório da ONU, que alerta que aquíferos compactados, áreas úmidas perdidas e solos degradados dificilmente se recuperam em escalas de tempo humanas.

Ao reconhecer que a água “transcende fronteiras políticas”, como aponta o relatório, a ONU reforça a necessidade de cooperação internacional e de exemplos concretos de sucesso. Programas brasileiros de sustentabilidade na cafeicultura demonstram que é possível alinhar produção agrícola, segurança hídrica, justiça social e mitigação climática.

A experiência acumulada pelo setor cafeeiro nacional mostra que investir em água não é custo, mas estratégia — para o produtor, para o mercado e para o planeta. Em um mundo que enfrenta a falência hídrica, iniciativas como o Café Produtor de Água e a expansão da cafeicultura regenerativa colocam o Brasil em posição de liderança, oferecendo respostas práticas a um desafio global.

Outro trabalho fundamental do CNC é a busca por garantir que o Brasil tenha acesso a recursos do Fundo Global Europeu – proposto pelo G7 -, iniciativa internacional voltada ao fortalecimento e à sustentabilidade da cafeicultura, com foco especial em investimentos em irrigação e cuidado com os recursos hídricos. As articulações começaram em 2024, durante a Assembleia da Organização Internacional do Café (OIC), em Londres, e avançaram ao longo de 2025 em fóruns internacionais e reuniões institucionais com lideranças europeias, incluindo encontros no Brasil.

O CNC defende que o país seja beneficiário estratégico dos recursos. As propostas incluem repasses a fundo perdido e linhas de financiamento subsidiadas, com possível operação financeira via Sicoob, tendo o Programa Café Produtor de Água como referência internacional de sustentabilidade e manejo hídrico.

Ao estruturar uma iniciativa com viés ambiental e econômico, o CNC e as cooperativas cafeeiras do Brasil reafirmam posição de vanguarda na promoção da sustentabilidade da cafeicultura brasileira, evidenciando a contribuição do setor para o cumprimento das metas ambientais do Brasil e para a produção responsável de café e água de qualidade, em benefício de toda a sociedade.

O programa já está em execução no Sul de Minas (Cooxupé e Minasul / Sicoob Credivar), no Cerrado Mineiro (montecCer), no Espírito Santo (OCB/ES, Cafesul, Cooabriel e NaterCoop – em parceria com o Programa Reflorestar do Governo Capixada) e, em breve estará na Mogiana Paulista (Cocapec).

Mais do que produzir café, o setor contribui para produzir água, resiliência e futuro.

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