Borra do café: os seus diversos usos no segmento de arquitetura
Leia, na sequência, artigo de autoria de Maria Adalgisa Cannavo Violante, designer de arquitetura e professora na Escola de Arquitetura da Universidade de Miami.
Imagine a cena: você está tomando sua terceira xícara de café do dia, cercado pelo ambiente aconchegante da sua cafeteria favorita. O barista acabou de jogar mais uma porção de borra de café no lixo.
E se esse resíduo pudesse se tornar as paredes ao seu redor, o isolamento que lhe proporciona conforto ou até mesmo as estradas por onde você dirige?
Por décadas, senão mais, a borra de café tem sido usada como fertilizante, mantendo as folhas mais verdes e os caules mais fortes. Será que o resíduo do café poderia desempenhar um papel na arquitetura ou no ambiente construído?
Borra de café: Todo ano, o mundo produz cerca de 7,4 milhões de toneladas de borra de café. Isso equivale aproximadamente ao peso de 740 Torres Eiffel ou a cerca de 148 bilhões de doses de expresso em resíduos.
Quando a borra de café acaba em aterros sanitários, o que acontece com a maioria, ela não fica lá simplesmente se decompondo inofensivamente. Ela produz metano, um gás de efeito estufa 34 vezes mais potente que o dióxido de carbono ao longo de um século. E se, em vez de ser tratado como lixo, o pó de café fosse tratado como um tesouro?
Três maneiras pelas quais o café está contribuindo para a construção de melhores edifícios e infraestruturas
Pesquisadores já descobriram que, quando o pó de café é combinado com subprodutos industriais, como escória e cinzas volantes, e ativado com soluções alcalinas, forma um material resistente conhecido como geopolímero.
Esse material, enriquecido com café, pode atingir a resistência necessária para uso em estradas em apenas sete dias, sem a necessidade de altas temperaturas para a cura. Isso significa menor consumo de energia e custos de produção mais baixos. Melhor ainda, evita que dois tipos de resíduos acabem em aterros sanitários simultaneamente: resíduos orgânicos de café e sobras industriais.
Além disso, o pó de café possui uma estrutura naturalmente porosa, o que o torna excelente para absorver som. Quando misturado com resina, pode ser transformado em painéis acústicos que reduzem o ruído dentro de edifícios.
Aquelas cafeterias barulhentas poderiam completar o ciclo do café, preparando-o e utilizando o resíduo para a fabricação de painéis de absorção sonora, melhorando o ambiente do estabelecimento.
Além disso, quando pesquisadores misturaram borra de café em compósitos de gesso, descobriram que a condutividade térmica caiu significativamente. Em termos simples, o material se tornou muito mais eficiente em reter o calor — ou em retirá-lo, dependendo da estação do ano.
Em uma simulação de uma casa tradicional em Marrakech, Marrocos, a substituição do gesso padrão por uma versão à base de café reduziu as necessidades de aquecimento e resfriamento em cerca de 20%. Isso se traduziu em aproximadamente 1.500 quilos a menos de CO2 por ano, para apenas uma casa. Multiplique isso por toda uma vizinhança e a diferença pode ser enorme.
Por que isso importa? A indústria da construção civil depende muito de matérias-primas, processos de fabricação com alto consumo de energia e sistemas que não mudaram muito em décadas. Enquanto isso, as cidades estão crescendo rapidamente, assim como o consumo de café.
O que torna o resíduo de café especial é o fato de ser urbano e abundante. Ele já é gerado nos próprios locais onde os edifícios são construídos — cafés, escritórios, casas e escolas. Ao contrário de alguns materiais sustentáveis que exigem cadeias de suprimentos complexas ou sistemas de produção rural, o resíduo de café já está inserido na vida urbana.
Usá-lo representa uma ideia maior chamada metabolismo urbano — o conceito de que as cidades podem reciclar seus próprios subprodutos em novos recursos, em vez de importar constantemente matérias-primas.
E isso não é apenas teórico. Esses materiais foram testados. As estradas atendem aos padrões de resistência. Os painéis acústicos reduzem o ruído. O isolamento diminui o consumo de energia.
Qual é o problema? Claro, não é tão simples quanto despejar borra de café no concreto e pronto.
Primeiro, a coleta é complicada. Não existe um sistema padronizado para coletar borra de café em grande escala. Cada cafeteria e residência a descarta de maneira diferente.
Segundo, a qualidade varia. A borra de café expresso é diferente da borra de café para prensa francesa, que é diferente do resíduo de café instantâneo. Os materiais de construção exigem consistência, e o resíduo de café não é uniforme.
Terceiro, a durabilidade a longo prazo permanece uma incógnita. Espera-se que os edifícios durem 50 anos ou mais. Como os materiais à base de café lidarão com a umidade, as variações de temperatura ou décadas de desgaste? E, por fim, há o custo. A matéria-prima pode ser barata ou gratuita, mas o processamento, os testes e a fabricação aumentam as despesas. Ela ainda precisa competir com os materiais tradicionais em termos de preço.
Esses desafios não são impeditivos, apenas fazem parte da inovação.
Pesquisadores também estão explorando biocombustíveis à base de café, filtros de carvão ativado e até bioplásticos. Os óleos naturais dos grãos de café podem servir como fontes de energia. A estrutura fibrosa pode fortalecer materiais compósitos. Seu teor de carbono pode até ajudar a armazenar carbono em vez de liberá-lo.
E, como o consumo global de café continua a crescer, especialmente em regiões de rápida urbanização, há muito material de design em potencial atualmente em lixeiras. Será que os resíduos da sua comunidade poderiam se tornar recursos para construção?
A arquitetura sustentável não se resume a painéis solares ou telhados verdes. Trata-se de mudar a forma como pensamos sobre materiais, resíduos e o próprio ambiente construído.