O Brasil , maior produtor e exportador de café do mundo, está entrando em um período de intenso escrutínio por parte das empresas, visto que o fenômeno El Niño deve impactar a safra de 2026/27.
A preocupação aumentou depois que a Associação Brasileira da Indústria Cafeeira (ABIC) alertou que, se a onda de calor prolongada e as chuvas irregulares continuarem, a produção de café do país poderá cair de 15 a 20% em relação ao esperado.
No entanto, o panorama atual não é totalmente sombrio .
A Agência Nacional de Abastecimento (Conab) do Brasil mantém sua previsão para a safra em aproximadamente 66,7 milhões de sacas (60 kg cada) – o maior nível já registrado. Isso indica que o mercado está atualmente dividido entre dois cenários: por um lado, a perspectiva de uma safra recorde se as condições climáticas forem favoráveis e, por outro, o risco de redução da oferta caso o El Niño se intensifique além do esperado.
Segundo Celirio Inácio da Silva, CEO da ABIC, uma queda de 15 a 20% não é incomum na agricultura . No entanto, considerando que os estoques globais de café permanecem baixos e a demanda estável, qualquer queda significativa na produção brasileira pode ter um forte impacto no mercado.
Em que o Brasil difere dos ciclos anteriores do El Niño?
Embora o El Niño tenha sido, em tempos, um pesadelo para a indústria cafeeira brasileira, a resiliência do país melhorou significativamente desde então.
Segundo a ABIC, muitas regiões produtoras de café investiram fortemente em sistemas de irrigação, variedades de culturas resistentes à seca e técnicas agrícolas modernas para reduzir a dependência da chuva. A tecnologia também está sendo aplicada de forma mais ampla na gestão das plantações, ajudando os agricultores a responderem proativamente às condições climáticas adversas.
Silva argumenta que essas mudanças melhoraram significativamente a capacidade da indústria cafeeira brasileira de se adaptar às mudanças climáticas.
Portanto, muitos especialistas acreditam que é improvável que este El Niño crie um choque de oferta grave como os ciclos anteriores, embora continue sendo um fator de risco que o mercado não pode ignorar.
O momento decisivo ainda está por vir.
Segundo especialistas agrícolas, o maior impacto do El Niño não será sentido no atual período de colheita, mas sim quando os cafeeiros entrarem na época de floração, por volta de setembro a outubro.
Se as temperaturas permanecerem elevadas enquanto as chuvas estiverem atrasadas ou distribuídas de forma irregular, os cafeeiros podem florescer em várias fases em vez de simultaneamente. Isso reduz a frutificação, causa maturação irregular e, em última análise, afeta tanto a produção quanto a qualidade.
Wellis Caixeta, diretor de compras da cooperativa Expocacer, afirmou que as chuvas fora de época no estado de Minas Gerais, há cerca de 40 dias, atrasaram a colheita do café arábica e fizeram com que muitos grãos caíssem no chão, resultando em danos à qualidade.
Isso sugere que, mesmo que a colheita atual não tenha sido significativamente afetada, padrões climáticos incomuns ainda podem impactar as perspectivas para a próxima safra.
Lições do ciclo mais recente do El Niño
A cautela do mercado não é infundada.
Segundo dados da Conab, a produção de café no Brasil em 2024 atingirá apenas 54,2 milhões de sacas, número significativamente inferior à previsão inicial de 58,8 milhões de sacas, devido ao El Niño, que, combinado com o clima quente e chuvas irregulares, afetou o crescimento dos cafeeiros.
Notavelmente, apesar da arábica ter entrado em um ciclo de safra excepcional de dois anos, a produção aumentou apenas ligeiramente, enquanto a produção de café conilon (robusta) diminuiu em quase 6%.
Este desenvolvimento demonstra que eventos climáticos extremos podem comprometer as vantagens inerentes ao ciclo biológico da planta do café.
Nem todas as regiões produtoras são afetadas da mesma forma.
Prevê-se também que o impacto do El Niño varie entre as regiões produtoras.
No estado do Espírito Santo – o maior produtor de café conilon do Brasil – Luiz Carlos Bastianello, presidente da cooperativa Cooabriel, afirmou que os intervalos entre as chuvas estão ficando mais longos, enquanto as precipitações se concentram em curtos períodos de alta intensidade.
Segundo ele, os produtores de café estão agora preocupados com a possibilidade de o El Niño prolongar o clima quente até o início de 2027, afetando o processo de desenvolvimento dos grãos.
Bastianello acredita que as altas temperaturas representam o risco mais preocupante para as árvores de conilon.
"Quando as temperaturas ultrapassam os 27°C, a taxa metabólica da planta começa a diminuir. Se atingir cerca de 35°C, esse processo praticamente cessa. Em muitos casos, os danos causados pelas altas temperaturas são ainda mais graves do que os causados pela falta de água", afirmou.
No entanto, nem todo o Brasil enfrenta o mesmo nível de risco.
Em Rondônia, uma importante região produtora de robusta, a Associação Cafeífera de Rondônia (Caferon) prevê que a produção deste ano poderá chegar a cerca de 3 milhões de sacas , superando as 2,77 milhões de sacas projetadas pela Conab.
Segundo Juan Travain, presidente da Caferon, a maioria das áreas de cultivo de feijão robusta no estado foi equipada com sistemas de irrigação, e muitas fazendas também utilizam sistemas de resfriamento à base de água, ajudando as plantas a suportarem melhor o calor.
O que isso significa para o mercado?
Sendo o maior produtor e exportador de café do mundo , qualquer mudança nas perspectivas da safra brasileira tem um impacto significativo no equilíbrio global entre oferta e demanda e nas tendências de preços do café.
Novas avaliações da ABIC indicam que o El Niño continua sendo um risco a ser monitorado, principalmente durante o período de floração do café nos últimos meses do ano. No entanto, a capacidade de adaptação da indústria cafeeira brasileira melhorou significativamente graças a investimentos em sistemas de irrigação, variedades melhoradas e tecnologias agrícolas avançadas, mitigando o risco de choques de oferta semelhantes aos vivenciados durante ciclos anteriores do El Niño.
Isso significa que a perspectiva para a oferta de café brasileiro na próxima safra dependerá não apenas da intensidade do El Niño, mas também das condições climáticas nas principais regiões produtoras durante as fases de floração e frutificação. Esses fatores também serão acompanhados de perto pelo mercado para avaliar as futuras tendências de preço do café.