CNA destaca discute transição técnica a cafeicultores em fórum na Suíça
Lideranças do agronegócio brasileiro concluíram uma série de reuniões estratégicas na Suíça com foco nas transformações regulatórias e comerciais que redefinem o mercado cafeeiro global. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) participou de encontros multilaterais realizados em Genebra e Montreux, incluindo as deliberações da 142ª Sessão do Conselho Internacional do Café (CIC), órgão decisório vinculado à Organização Internacional do Café (OIC). O objetivo central da missão internacional foi debater gargalos de suprimento, sustentabilidade multissetorial e exigências fitossanitárias e socioambientais impostas por polos consumidores aos países exportadores.
A comitiva nacional foi liderada pelo presidente da Comissão Nacional de Café da CNA, Ademar Pereira, que atuou em coordenação com representantes diplomáticos do governo federal e entidades privadas do complexo agroindustrial exportador. O fórum intergovernamental do CIC congrega governos produtores e importadores, além de tradings e torrefadores multinacionais, constituindo a principal arena política para definir parâmetros normativos de conformidade, remuneração da matéria-prima e protocolos de rastreabilidade internacional.
Segundo informações divulgadas pelo Portal CNA Brasil, os diálogos multilaterais buscaram alinhar as salvaguardas necessárias para que a transição técnica imposta pelos blocos desenvolvidos não exclua economicamente os cafeicultores, em especial os extrativistas e agricultores familiares. A entidade apontou que a modernização da cadeia precisa viabilizar a transferência de tecnologia e mitigar custos regulatórios acumulados na base produtiva primária.
O posicionamento institucional do Brasil no cenário exterior ocorre em meio à pressão exercida pela Regulamentação da União Europeia para Produtos Livres de Desmatamento (EUDR). A norma europeia exige comprovação georreferenciada de que as commodities agrícolas, incluindo o café, não tenham sido cultivadas em áreas desmatadas após dezembro de 2020. Para o setor exportador brasileiro, que mantém liderança histórica na produção de cafés arábica e conilon, a conformidade documental se transformou no principal desafio de competitividade logística e aduaneira para o acesso àquele continente.
O parque cafeeiro brasileiro apresenta elevada taxa de preservação e aderência ao Código Florestal, dispondo do Cadastro Ambiental Rural (CAR) como ferramenta pública de monitoramento territorial. Contudo, as exigências unilaterais de verificação e os custos de auditoria terceirizada transferem encargos financeiros desproporcionais aos elos primários da cadeia de valor. O segmento reivindica que os importadores e a indústria de moagem e torrefação compartilhem os dispêndios de implementação tecnológica de plataformas de dados e sensoriamento remoto.
Além das barreiras técnicas de acesso aos portos europeus, os operadores de café enfrentam oscilações climáticas atípicas nas principais bacias produtoras do Sudeste brasileiro e elevações sucessivas nos fretes marítimos globais. Esse conjunto de variáveis macroeconômicas reforça a urgência de acordos plurilaterais que previnam distorções na oferta e forneçam segurança jurídica de longo prazo aos contratos de fornecimento firmados pelo setor cooperativista e grandes tradings.
Durante os debates técnicos, Ademar Pereira defendeu que a governança sustentável precisa articular as dimensões ambiental, econômica e social de maneira inseparável. A posição levada pela representação do agronegócio sustenta que imposições ambientais desconectadas da remuneração e do custo operacional colocam em risco a sobrevivência financeira dos agricultores, sobretudo em economias emergentes que dependem do agronegócio para o equilíbrio de suas balanças de pagamentos.
De acordo com o presidente da Comissão Nacional de Café da CNA em declaração registrada pelo Portal CNA Brasil, a evolução setorial depende de suporte estruturado: "A transparência nas cadeias de suprimentos e o atendimento às novas exigências dos mercados são fundamentais para o futuro do café. Para avançarmos rumo a uma cadeia cada vez mais sustentável, competitiva e inclusiva, é essencial que capacitação, informação e acesso às novas tecnologias caminhem lado a lado com as exigências do mercado".
A liderança reforçou que o diálogo técnico com compradores corporativos da Europa é indispensável para evitar que a conformidade digital crie entraves não tarifários velados. O adensamento de normas técnicas de rastreamento satelital exige volumosos aportes em conectividade rural e governança de dados, investimentos que exigem contrapartidas de preços premium no embarque dos lotes certificados.
A missão técnica internacional cumpriu uma agenda sequencial entre as cidades suíças, estruturada a partir de workshops operacionais e assembleias governamentais:
Plataforma Global do Café (Genebra – 28/09): Alinhamento das estratégias corporativas de sustentabilidade e metas de redução de pegada hídrica e carbônica na originação do grão.
142ª Sessão do CIC (Genebra – 29/09): Abertura formal das deliberações com os países-membros da OIC sobre comércio multilateral e balanços de safra.
Força-Tarefa Público-Privada do Café (Genebra – 30/09): Discussão aprofundada dos impactos da EUDR e diálogo conjunto com a Plataforma Suíça do Café.
Fórum das Lideranças Mundiais do Café (Montreux – 01/10 e 02/10): Debates de alto escalão corporativo durante a conferência do WCLF em paralelo às celebrações do Dia Internacional do Café.
A atuação dentro da Força-Tarefa Público-Privada do Café (FTPPC) concentrou as análises práticas sobre a viabilidade de interoperabilidade entre sistemas públicos nacionais, como a plataforma de conformidade ambiental brasileira, e os requerimentos de diligência prévia (due diligence) exigidos pela burocracia de Bruxelas. O diálogo com a iniciativa privada europeia buscou acelerar protocolos mútuos de validação de documentos sem sobrecarregar os canais aduaneiros.
Em Montreux, as rodadas bilaterais do World Coffee Leaders Forum aprofundaram projeções de demanda a médio prazo. A indústria de torrefação internacional sinalizou que a migração para métodos regenerativos de cultivo e práticas de baixo carbono exigirá estabilidade nas cadeias fornecedoras e investimentos em pesquisa genética para mitigar o estresse hídrico e pragas emergentes nas plantações.
O direcionamento técnico das discussões aponta que a integração entre plataformas de auditoria digital e sistemas de pagamento em campo representa a próxima etapa de amadurecimento corporativo do mercado cafeeiro. Cooperativas exportadoras brasileiras já operam projetos-piloto que utilizam registros imutáveis e inteligência geoespacial para certificar a procedência física de cada saca despachada nos portos de Santos, Paranaguá e Vitória.
No entanto, lideranças do setor privado internacional admitiram, nas sessões de encerramento em Montreux, que há assimetrias severas na velocidade de implantação dessas arquiteturas digitais entre diferentes países produtores da África, Ásia e América Latina. Sem o engajamento financeiro direto dos conglomerados industriais de processamento, a tendência observada é de concentração de compras em operadores de grande escala, eliminando agentes médios e familiares do sistema comercial formal.
A estratégia de atuação da bancada brasileira em fóruns como a OIC prioriza demonstrar que os modelos tropicais de agricultura sustentável detêm maturidade superior à percebida por legisladores estrangeiros. O compartilhamento de métricas auditáveis é a ferramenta escolhida para contrapor narrativas protecionistas e garantir que o café do país continue acessando canais institucionais nos principais destinos de exportação.
A crescente sofisticação regulatória verificada nos mercados internacionais do café indica uma mudança estrutural na dinâmica das commodities globais: a conformidade técnica e a rastreabilidade socioambiental deixaram de ser diferenciais comerciais para se tornarem pré-requisitos formais de acesso a mercado. O descompasso entre a velocidade das exigências formuladas por órgãos reguladores europeus e a realidade das etapas de originação no campo impõe riscos operacionais concretos para o fluxo de comércio exterior.
Para o ecossistema agroindustrial brasileiro, o desafio transcende a simples adaptação burocrática. A cadeia precisa acelerar a integração entre tecnologias públicas de monitoramento territorial, como o CAR, e ecossistemas privados de diligência corporativa. Essa governança de dados interoperável é indispensável para comprovar a legalidade ambiental e fundiária dos lotes agrícolas em escala massiva, minimizando custos de fricção cartorial nos portos de destino.
A sustentabilidade econômica e a sobrevivência de produtores independentes dependerão da capacidade do mercado em estabelecer mecanismos que distribuam os encargos da transição verde ao longo de toda a esteira de valor. Enquanto o ônus da comprovação documental e do monitoramento satelital recair unicamente sobre o elo primário, a viabilidade de pequenos e médios operadores continuará comprometida. A estruturação de preços que remunerem formalmente a preservação de biomas e a infraestrutura de dados emerge como a condição indispensável para a integridade de longo prazo do abastecimento mundial de café.