Estudo romeno busca decifrar fatores que garantem prazer em tomar café
O que torna uma xícara de café mais prazerosa? Beber café puro, em uma xícara de cerâmica, em uma manhã de quarta-feira na primavera — é o que aponta uma nova pesquisa.
Todo amante de café tem seu próprio ritual para o momento ideal, mas será que existem fatores — além do sabor — que contribuem para o prazer (ou que o diminuem)? Foi isso que uma equipe internacional de pesquisadores, liderada pela Universidade Alexandru Ioan Cuza, na Romênia, buscou responder em um dos maiores estudos globais já realizados sobre o prazer de consumir café em situações reais.
Ao entrevistar quase 3.000 consumidores de café em 11 países, os pesquisadores analisaram como fatores como o horário do dia, a estação do ano, o tipo de xícara, a adição de outros ingredientes, o preço e os hábitos do consumidor influenciam o prazer proporcionado pela bebida.
“Nosso principal interesse era saber se comportamentos habituais poderiam alterar a experiência sensorial”, explica Georgiana Juravle, professora associada de neurociência.
“Queríamos entender se certos hábitos — como beber café enquanto se caminha ou sentado, ou tomar a bebida fazendo barulho (como um especialista) em vez de apenas bebericar — tornam a experiência mais ou menos prazerosa.”
A equipe de pesquisa descobriu que o prazer de tomar café depende tanto do contexto quanto da própria bebida. Os resultados indicam que o momento do dia é fundamental: o café é mais apreciado quando consumido pela manhã. A época do ano também influencia, com o nível de satisfação atingindo seu auge na primavera e caindo drasticamente no outono.
“Ficamos surpresos ao descobrir que o café é mais apreciado às quartas-feiras; é como se a bebida ajudasse as pessoas a superar o cansaço típico do meio da semana”, diz Juravle.
“Outro resultado que nos surpreendeu diz respeito ao açúcar. Dada a conhecida preferência das pessoas pelo sabor doce, esperávamos que elas gostassem mais de um café adoçado. No entanto, a adição de açúcar esteve consistentemente associada a um menor grau de satisfação.”
“Interpretamos esse resultado como um mecanismo de enfrentamento: provavelmente, o consumidor está tentando lidar com o amargor do café, em vez de estar realmente desfrutando da bebida que tem à sua frente.” Embora a inovação nos cardápios continue focada em personalização e sabores extravagantes, os participantes atribuíram as maiores notas de satisfação ao café puro; a adição de múltiplos ingredientes, por sua vez, resultou em uma queda progressiva nessas avaliações.
“A preferência pelo café puro mostrou-se notavelmente estável, mantendo seu apelo ao longo de toda a semana, em comparação com cafés que levam ingredientes adicionais”, afirma Juravle.
“Quanto a esses ingredientes extras, vale notar que o leite ajudou a aumentar a satisfação com o café; contudo, as pessoas que adicionaram leite à bebida tiveram menos probabilidade de atribuir a nota máxima de satisfação.”
Os participantes também demonstraram preferência pelo recipiente: o café consumido em xícaras de cerâmica obteve, consistentemente, notas mais altas do que aquele servido em copos de papel ou plástico.
Além disso, as tampas utilizadas em cafés para viagem reduziram significativamente o nível de satisfação, especialmente nas estações mais frias. Segundo os pesquisadores, isso ocorre porque as tampas restringem a liberação de aromas, o que acaba afetando a percepção do sabor.
Em um cenário em que os preços do café verde continuam pressionando o setor, Juravle destaca uma conclusão do estudo que traz uma mensagem tranquilizadora para os empresários.
“Os consumidores não apenas aceitam pagar preços mais altos pelo café, como também relatam uma satisfação maior; o valor mais elevado está associado a uma probabilidade maior de o cliente atribuir a nota máxima de satisfação”, diz ela.
“No entanto, acreditamos que, para que essa satisfação elevada se mantenha, o preço precisa ser conhecido e percebido como um indicador de qualidade. O café puro — a bebida que exige o menor custo de preparo — foi o mais apreciado em nossa amostra. Como não há outros elementos na xícara capazes de mascarar o sabor dos grãos, o investimento em café verde de maior qualidade pode ser economicamente justificado.”
“Vale ressaltar, ainda, que os clientes mais satisfeitos em nossa amostra foram os consumidores habituais — aqueles que bebem cerca de quatro a cinco xícaras por dia. Esse resultado reforça a viabilidade de modelos como assinaturas e programas de fidelidade estruturados com base na frequência de consumo.”